Pizza Day é sobre Mineração, não sobre Pizza.
Esta sexta-feira, 22 de Maio, assinalam-se 16 anos desde que Laszlo Hanyecz pagou 10.000 BTC por duas pizzas da Papa John's. A maioria das pessoas fica por aqui. Mas doze dias antes dessa compra, a 10 de Maio de 2010, Laszlo publicou no BitcoinTalk aquele que seria provavelmente o post técnico mais consequente da história do Bitcoin:
"Updated Mac OS X binary… It will use your GPU to generate bitcoins. This works really well if you have a good GPU like an NVIDIA 8800 or something like that."
Até então, toda a rede minava em CPU. As GPUs são ordens de magnitude mais rápidas para esse tipo de cálculo. O resultado foi imediato: o hashrate total do Bitcoin cresceu 130.000% até ao final de 2010.
Inventário, não poupanças.
Aqueles 10.000 BTC não eram as economias de uma vida. Entre Abril e Novembro de 2010, a carteira conhecida de Laszlo recebeu 81.432 BTC — maioritariamente provenientes das suas rigs de GPU. Depois da compra das pizzas a 22 de Maio, levou-lhe menos de uma semana a repor o stack. A oferta era aberta: qualquer pessoa podia aceitar 10.000 BTC por duas pizzas, e ele repetiu a transacção várias vezes. Pelo próprio relato, terá gasto perto de 100.000 BTC ao longo de 2010 em pizzas e outras compras.
Uma nota sobre "o primeiro GPU miner".
Laszlo é frequentemente descrito como o inventor do GPU mineração para Bitcoin — e foi certamente o primeiro a tornar esse código público. Mas o título de primeiro GPU miner é geralmente atribuído a ArtForz, um miner pseudónimo que desenvolveu o seu próprio software antes de Laszlo, mantendo-o privado para vantagem competitiva. A contribuição de Laszlo foi diferente e, em certo sentido, maior: ao publicar o código abertamente, desencadeou a corrida ao armamento que transformou a mineração.
A conversa com o Satoshi — e uma teoria.
O Satoshi contactou Hanyecz em privado após a publicação. O argumento era simples: uma das principais atracções do Bitcoin para novos utilizadores era que qualquer pessoa com um computador podia minar moedas. As GPUs, muito menos distribuídas do que as CPUs, concentrariam a emissão nas mãos de uma minoria com hardware de topo — prematuramente, antes de a rede ter massa crítica. Pediu-lhe para abrandar.
Existe uma teoria — plausível, mas não confirmada pelo próprio Laszlo — de que este diálogo pesou na forma como ele encarou as suas moedas. A ideia é que, ao sentir que havia "estragado" a distribuição justa da rede com a sua inovação, Laszlo terá compensado gastando activamente os BTC que minava, incluindo nas pizzas. É uma narrativa coerente com os factos on-chain. Mas é uma interpretação, não uma confissão.
O que é facto: Satoshi já tinha o seu próprio código de GPU mineração, mantido em segredo como salvaguarda contra ataques de 51%, e partilhou-o com Laszlo durante essa troca. O paradoxo é fascinante — o criador do Bitcoin desenvolveu a mesma ferramenta que tentou suprimir.
O que celebrar nesta sexta-feira.
A história canónica do Pizza Day é a do homem que vendeu 10.000 Bitcoins por duas pizzas. É uma boa história. A história real é a de um engenheiro que publicou código que multiplicou o poder computacional da rede por mil, foi repreendido pelo seu criador por isso, e passou o resto do ano a gastar as moedas que a sua própria invenção lhe permitiu minar.
Celebra o Pizza Day lembrando a segunda história.